Os nossos frutos definem as nossas intenções.

RC – Ecos do Meio
Passadas as comemorações do Dia das Mães, alguns acontecimentos me levaram a refletir sobre os relacionamentos humanos e o quanto interesses — muitas vezes nada humanos — vêm redesenhando os caminhos dentro das próprias famílias. Ah! E hoje (15 de maio) é Dia da Família”. O que chamamos de família tradicional parece se perder diante das tecnologias, das conveniências e dos jogos silenciosos de interesse. A percepção do certo e do errado vai se deteriorando, tornando-se cada vez mais distante de qualquer julgamento ético, como se tudo estivesse se tornando naturalmente aceitável. Nesse cenário, o abacate e o limão transformaram-se, para mim, em protagonistas de mais uma pequena novela marcada por interesses rasos, sem qualquer análise e sensibilidade para compreender o impacto do ir e vir dos gestos.
Como sempre, é justamente nessa observação do cotidiano e de seus acontecimentos que encontro temas para “minhas escritas” ou apenas registros. Talvez momentos de prazer e reflexão. Talvez o meu espaço cultural de resistência. Ou, quem sabe, talvez uma tentativa silenciosa de troca com aqueles que, em algum momento, irão interagir com essas palavras e, então, “ouviremos gritos” — lembrança inevitável, do meu poema Gritos.
Talvez tudo isso seja apenas uma reflexão sobre o verdadeiro valor dos frutos (bendito é o fruto!)
Em meio à acidez de certos acontecimentos, surge uma percepção inevitável: mais importante do que o valor de quem deixou de receber é compreender a dimensão emocional de quem escolheu negar. Porque, no fim, os frutos da terra alimentam o corpo, mas são os sentimentos cultivados nas relações, que verdadeiramente definem quem somos, ainda que isso pareça improvável em tempos tão líquidos e imediatistas. Sigmund Bauman, presente!
O abacate, por exemplo, com sua textura densa, oleosa, suave e quase acolhedora em seu ventre, encontra no limão a acidez intensa, viva e provocativa. Separados, cada um guarda sua própria essência. Juntos, transformam-se em algo diferente: equilíbrio ou conflito, dependendo da medida, da intenção e do tempo. Sem falar das lembranças afetivas do “abacate com limão e açúcar”… uma recordação saborosa da infância em família.
As relações humanas têm se parecido muito com essa mistura. Em um mundo onde quase tudo pode ser adquirido, negociado ou substituído, os vínculos afetivos passaram a carregar “interesses silenciosos”. Pessoas se aproximam não pela essência do outro, mas pelo que ele oferece: status, conveniência, influência, companhia momentânea ou segurança emocional. O amor (dos nossos ancestrais), antes cultivado como presença e permanência, dissolve-se, muitas vezes, na lógica do consumo rápido — relações descartáveis em uma sociedade movida por desejos instantâneos.
É importante explicar que aqui o abacate representa o afeto profundo, a consistência, aquilo que nutre. Rico em propriedades que fortalecem e sustentam, simboliza relações construídas na calma, no cuidado, na permanência e no ventre. Já o limão, ácido e intenso, traduz os choques da modernidade: a pressa, as cobranças, o imediatismo e as relações que, em excesso, corroem lentamente aquilo que antes era saudável.
Curiosamente, na culinária, o limão impede que o abacate oxide rapidamente. Ele preserva sua cor, sua aparência e parte de sua vitalidade. Nas relações humanas, a crítica saudável, a sinceridade e até os conflitos podem cumprir função semelhante: preservar a verdade do vínculo. Mas existe um limite. Quando a acidez domina, o sabor desaparece.
“O universo talvez não julgue pela fruta oferecida, mas pela intenção escondida em cada entrega.”
Talvez o grande desafio contemporâneo esteja exatamente aí: encontrar a medida entre o acolhimento e a intensidade, entre o sentir e o exigir, entre amar alguém pelo que é — e não pelo que pode proporcionar, oferecer, lhe dar. Porque relações verdadeiras não deveriam funcionar como contratos invisíveis, nos quais o afeto dura apenas enquanto houver vantagem.
“Abacate com limão” torna-se, então, uma metáfora do nosso tempo: relações que tentam equilibrar suavidade e acidez em uma sociedade que oferece mil possibilidades, desde que alguém esteja disposto a pagar o preço. O problema é que o amor, quando transformado em moeda, perde sua capacidade mais humana: a de permanecer mesmo quando já não existe lucro algum em ficar.
“No pomar das relações humanas, nem sempre quem mais ama é quem recebe os frutos.”
E talvez exista, sim, um outro olhar do universo sobre tudo isso. Um olhar capaz de compreender que aquilo que nos negam também revela, silenciosamente, o vazio de quem escolheu negar.
“Talvez o outro olhar do universo esteja em compreender que aquilo que nos negam também revele o vazio de quem escolheu negar.”